Nabonido: o que o último rei da Babilônia fazia no deserto?
Nabonido passou cerca de dez anos em Tayma, longe da Babilônia. As fontes não dizem por quê. Os textos que o chamam de louco foram escritos por quem ganhou.
Nabonido: o que o último rei da Babilônia fazia no deserto? Todo ano, na primavera, a festa de Akitu abria o ano. O rei ia ao templo e, diante de todos, tomava a mão da estátua de Marduk. Uma crônica de barro registra, em quatro anos, quase as mesmas palavras: o rei estava em Tayma, não veio à Babilônia, Marduk não saiu, a festa não aconteceu. Tayma fica no deserto da Arábia, a mais de mil quilômetros. Nabonido passou cerca de dez anos longe da capital, enquanto Ciro juntava um exército do outro lado do Tigre. Ninguém sabe ao certo por quê. Os textos que explicam o sumiço foram, em boa parte, escritos por quem ganhou. O mesmo cuidado com o relato do vencedor aparece nos Povos do Mar, em que a parede é de Ramsés, e nos soldados de Roma, quando o poder muda de mãos.

Um rei de fora
Nabonido chegou ao trono em 556 antes de Cristo, de um jeito estranho. Depois de Nabucodonosor veio uma sequência curta de reis. O último antes dele, Labashi-Marduk, reinou cerca de duas semanas e foi deposto. Os estudiosos acham que foi um golpe. A Archaeology, em 2022, diz que Nabonido tomou o trono provavelmente por esse meio, já com cinquenta ou sessenta anos, e que o filho, Belsazar, talvez tenha participado. Talvez. Não está provado.
Em 1956, D. S. Rice achou em Harã, no norte da Síria, a estela do enterro de Adad-guppi, mãe de Nabonido. A pedra tinha virado degrau de mesquita. O texto, em primeira pessoa, diz que ela viveu cento e quatro anos, cuidou do templo do deus-Lua, Sin, e que Sin lhe apareceu em sonho prometendo que o filho reconstruiria o templo Ehulhul. Os estudiosos acham que a corte do filho compôs o texto depois da morte dela. Os cento e quatro anos são o que a corte quis registrar. A família vinha de Harã, e a fé era Sin.
A Babilônia tinha outro deus principal, Marduk, e um clero que cuidava dos templos e da festa do Ano Novo. Nabonido, segundo os estudiosos, pode ter sido de origem aramaica: a questão continua em debate. No segundo ano, reformou o templo de Sin em Ur durante um eclipse da Lua e colocou a filha como sacerdotisa principal. A Archaeology fala em cerca de três mil inscrições cuneiformes, mais do que qualquer outro rei da Babilônia daquela época. Nos últimos anos, Marduk quase não aparece, e os sacerdotes da capital são criticados. Um estudioso lembrado pela revista propõe que elevar Sin talvez unisse um império espalhado. É hipótese.

Os anos sem festa
A Crônica de Nabonido está danificada. No ano 6, que se costuma datar em 550 antes de Cristo, Astíages, rei da Média, marcha contra Ciro, rei de Anshan. O exército se revolta, entrega o rei, e Ciro toma a capital dos medas. Nos anos 7, 9, 10 e 11, a crônica repete: o rei está em Tayma; o príncipe, os oficiais e o exército estão na Acádia. No mês de Nisan, o rei não veio. Nabu não veio. Bel não saiu. A festa de Akitu não aconteceu. A crônica não diz que a festa foi proibida. Diz que não aconteceu, e o motivo mais simples é a ausência do rei. As oferendas, em outras partes, continuavam. O gesto do rei diante do deus não foi feito. O narrador do vídeo registra que não confirmou se só o rei podia presidir: isso é o que a leitura sugere, não o que o texto afirma.
Quem ficou foi Belsazar. Nos textos da época ele é príncipe herdeiro. Os historiadores falam em co-regente porque, na prática, ele mandava. Ele nunca usou o título de rei. A fama de rei vem da Bíblia, e o vídeo a trata como confusão. No ano 9, Ciro reuniu o exército e atravessou o Tigre. O Livius resume que do ano 7 ao 16 o rei ficou no oásis. Outros autores dão datas um pouco diferentes, em torno de 553 a 543. O vídeo não afirma o ano exato de ida e de volta. Foi mais ou menos uma década.
Tayma
Tayma é um oásis no norte da Arábia, hoje na Arábia Saudita, parada de caravanas. Segundo a Archaeology, Nabonido montou lá uma espécie de capital paralela. As teorias são muitas: rota de incenso, campanha contra os edomitas, o culto de Sin, doença, conflito com os sacerdotes ou com o filho. As notas do Livius dizem que a pergunta provavelmente nunca será respondida.
Desde 2005, uma equipe saudita e alemã liderada por Arnulf Hausleiter escava o oásis. Acharam estruturas, inscrições e objetos com o nome do rei. Schaudig observou que as inscrições repetem fórmulas babilônicas. Há um texto cuneiforme perto de uma construção identificada com cautela como templo. Em 2021 foi noticiada uma inscrição na rocha perto de Al Hayit, com um símbolo parecido com uma serpente que aparece só em duas imagens do rei. O vídeo descreve o que a reportagem conta, sem ter visto as imagens. Tayma foi um lugar onde um rei agiu e escreveu, não só um esconderijo. O Relato em Verso diz que ele matou o príncipe da cidade e construiu um palácio igual ao da Babilônia. A arqueologia não prova o poema inteiro. Também não o contradiz num ponto: havia um rei babilônico agindo lá. Estelas aramaicas de 1880 e de 1980 trazem sol, lua e estrela da manhã, mas são do século V antes de Cristo, cerca de um século depois. Mostram culto à Lua na região. Não dizem o que ele fazia.


O poema dos vencedores
O Relato em Verso foi escrito depois da queda. A tradução mais conhecida é de A. Leo Oppenheim. Começa dizendo que a lei e a ordem não são promulgadas por ele e que ele fez o povo perecer de fome. Acusa-o de fazer a imagem de um deus que ninguém tinha visto e de chamá-la de Lua. Diz que, até terminar o Ehulhul, ele deixaria as festas de lado, inclusive a do Ano Novo. Em primeira pessoa, no terceiro ano ele entrega o exército ao filho mais velho e parte para Tayma. O poema usa a ausência como prova de mau rei. A crônica descreve o mesmo fato, a festa que não aconteceu, sem esse julgamento. O final, danificado, menciona que o rei está louco. As notas do Livius dizem que honrar Sin é fato e que a blasfêmia contra Marduk é provavelmente exagero. Ter inimigos não é o mesmo que ser louco. A Archaeology menciona rebeldes que, depois da queda, se declaram filhos de Nabonido. O nome ainda tinha peso para alguns.
O rei que cavou
O cilindro de Sippar, traduzido por Paul-Alain Beaulieu, é um texto de fundação escrito depois do retorno da Arábia e antes da guerra com Ciro. O rei diz que removeu escombros do templo de Shamash, procurou o depósito antigo e cavou dezoito côvados, cerca de nove metros. Shamash lhe mostrou as fundações de Naram-Sin, filho de Sargão, que nenhum rei teria achado em 3.200 anos. Ele diz que não alterou a inscrição, ungiu com óleo, fez oferendas e devolveu ao lugar, com a sua. Noutro trecho, fundações teriam sido verificadas por oitocentos anos, desde Shagarakti-Shuriash.
O rótulo de primeiro arqueólogo é tentador e é divulgação, não fato. O Museu Britânico observa que as datas exageram a idade dos reis em mais de mil anos. Ele cavava sem poder saber a data do que achava. A resposta provável não é ciência no sentido de hoje. É legitimidade: um rei de fora, que tomou o trono de um jeito discutido, mostra que continua o que os reis antigos fizeram. No poema, ele despreza a religião tradicional. No cilindro, cuida de templos com um respeito quase obsessivo. Cada texto mostra o lado que servia a quem escreveu.
A oração e a queda
A fama de louco tem outra origem. O fragmento 4Q242, a Oração de Nabonido, foi copiado em Qumran na segunda metade do século I antes de Cristo, a partir de um texto mais antigo. Em aramaico, o rei diz que foi castigado com uma úlcera por sete anos em Tayma, rezou a deuses de prata, ouro, bronze, ferro, madeira, pedra e barro, e um judeu perdoou o pecado e mandou que ele anunciasse o ocorrido. É uma história judaica, séculos depois, sobre um rei estrangeiro que se cura ao reconhecer o Deus verdadeiro. O lugar, Tayma, mostra que quem escreveu sabia da estadia. Em Daniel 4, Nabucodonosor perde a razão por sete anos. Muitos estudiosos relacionam as histórias. Como, ninguém tem certeza. O Livius defende que uma versão trocou o nome e outra trocou a doença. Três textos, três doenças. A fama de louco cresceu no boca a boca, como a de Lilith, e passou de um personagem a outro.
No ano 17, a crônica diz que o rei estava de volta e que o Akitu foi celebrado. Os deuses de várias cidades foram trazidos para a Babilônia. Os de Borsippa, Cuta e Sippar não entraram. Ciro lutou em Opis, na margem do Tigre. O povo de Acádia recuou. No dia 14, Sippar foi tomada sem batalha. Nabonido fugiu. No dia 16, Ugbaru e o exército de Ciro entraram na Babilônia sem luta. Nabonido foi capturado. As tropas cercaram os portões do Esagil, e a crônica diz que os ritos não foram interrompidos. No terceiro dia do mês seguinte, Ciro entrou. Havia paz. Os deuses que Nabonido tinha trazido voltaram aos lugares. Na noite do dia 11, Ugbaru morreu. Em Adaru, a mulher do rei morreu, e houve luto oficial. A crônica não diz que a cidade foi destruída, nem que o povo se revoltou, nem o que aconteceu com Nabonido depois da captura. Beaulieu, citado pela Archaeology, resume a queda em duas semanas.

O Cilindro de Ciro, no Museu Britânico, é o ponto de vista do vencedor. Um homem incompetente teria acabado com as oferendas e feito o mal contra a cidade de Marduk. Marduk teria procurado um rei justo, tomado Ciro pela mão e o feito entrar sem luta. Entregou Nabonido, “o rei que não o reverenciava”. Crônica e cilindro concordam na entrada sem batalha, na captura e na volta dos deuses. O tom muda: registro seco de um lado, propaganda do outro. Durante muito tempo o cilindro foi lido como carta de direitos humanos. A World History Encyclopedia lembra que isso é anacronismo, e que uma réplica dada à ONU em 1971 tinha uma tradução inglesa abreviada e manipulada. O texto legitima Ciro.

O que se sabe, no fecho do vídeo: subiu em 556, provavelmente por um golpe; a família vinha de Harã e honrava Sin; passou cerca de uma década em Tayma com o filho no comando; o Akitu não aconteceu em vários anos; cavou cerca de nove metros e errou a data em mais de um milênio; desde 2005 o deserto mostra marcas reais. As histórias de louco, ímpio e incompetente vêm de quem ganhou ou de quem escreveu muito depois. O rei que abandonou a capital, o que reverenciava o passado e o doente de Tayma podem ter, cada um, um pedaço. Quando um texto acusa um rei caído, a pergunta é quem ganhou com a acusação.
Perguntas frequentes
Por que Nabonido foi para Tayma?
Ninguém sabe ao certo. Há hipóteses comercial, militar, religiosa, de doença e de conflito com os sacerdotes ou com o filho. As notas do Livius dizem que a pergunta sobre o que ele fazia em Tayma provavelmente nunca será respondida. A crônica registra a ausência. Não explica o motivo.
Belsazar foi rei da Babilônia?
Não. Nos textos da época ele é príncipe herdeiro. Os historiadores falam em co-regente porque, na prática, ele mandava enquanto o pai estava longe, mas ele nunca usou o título de rei. A ideia de que Belsazar era o rei vem de uma confusão com a Bíblia.
Nabonido era louco?
Não dá para afirmar. A Oração de Nabonido, de Qumran, fala de uma úlcera de sete anos em Tayma, não de loucura. O Relato em Verso, escrito depois da queda, menciona loucura e é um texto dos vencedores. Daniel 4 conta um castigo de outro rei, Nabucodonosor. São três textos e três doenças diferentes.
Ele foi o primeiro arqueólogo?
O Cilindro de Sippar descreve uma escavação de dezoito côvados até a fundação de Naram-Sin. O rótulo de primeiro arqueólogo é interpretação de divulgação, não fato. Nada prova que foi o primeiro. O Museu Britânico observa que as datas que ele dá exageram a idade dos reis em mais de mil anos.
O que aconteceu com Nabonido depois de 539 a.C.?
A crônica diz que ele foi capturado na Babilônia. Não conta o destino depois disso. O vídeo não inventa esse final. A queda da capital, segundo Beaulieu citado pela Archaeology, levou cerca de duas semanas, com entrada sem batalha.
Fontes
- A. K. Grayson, Crônica de Nabonido (ABC 7) (abre em uma nova aba)
- Relato em Verso de Nabonido (A. L. Oppenheim) (abre em uma nova aba)
- Cilindro de Nabonido de Sippar (P.-A. Beaulieu) (abre em uma nova aba)
- Cilindro de Ciro (abre em uma nova aba)
- 4Q242, Oração de Nabonido (abre em uma nova aba)
- Archaeology, The Last King of Babylon (2022) (abre em uma nova aba)
- British Museum, objeto W 1882,0714.1025 (abre em uma nova aba)
