Bíblia

Quem foi Lilith? A história que não está na Bíblia

Quem foi Lilith? A primeira esposa de Adão não está na Bíblia. A palavra aparece uma vez em Isaías, e a história foi montada depois, em camadas.

Quem foi Lilith? A história que circula diz que ela foi a primeira esposa de Adão, criada do mesmo barro antes de Eva, que se recusou a ficar por baixo dele e foi embora do Éden. Tem gente que conta isso como se estivesse na Bíblia. Não está. Não há Lilith casada com Adão, nem briga no jardim, nem fuga. A pergunta do vídeo é de onde saiu essa história. O caminho passa por demônios da Mesopotâmia, uma palavra em Isaías, três frases do Talmude, tigelas de barro, um livro medieval e uma revista de 1976. No meio, a figura muda de cara. O mesmo cuidado com o que o texto diz e com o que veio depois aparece nos anjos da Bíblia e no fim dos doze apóstolos.

A capa deste texto mostra a versão popular: mulher alada, homem, serpente e frutos. Isso é ilustração da história que se conta, não uma cena bíblica.

Uma palavra em Isaías

A palavra aparece uma vez. Em toda a Bíblia hebraica, lilit está em Isaías 34:14. O contexto é um poema de destruição: palácios com espinhos, fortalezas com urtigas, chacais, avestruzes, corujas, corvos. Numa tradução recente da Jewish Publication Society, o verso fala de gatos selvagens e hienas, demônios-bode que se chamam, e a lilit que descansa e acha um lugar para ficar. É uma fila de criaturas do deserto. Não há casamento nem fuga.

Os tradutores nunca concordaram. Em algumas Bíblias vira coruja. Em outras, ave noturna, monstro da noite ou megera da noite. Teve edição que deixou Lilith, com maiúscula, como se fosse uma pessoa. Tratar como nome próprio é decisão de quem traduz. A Bíblia dá, no máximo, uma criatura ligada à noite e a lugares desertos.

Os demônios da noite

Na Mesopotâmia, onde hoje é o Iraque, havia uma categoria de demônios de nomes parecidos. Os homens eram lilû. As mulheres, lilītu ou ardat lilî. Rebecca Lesses, no Jewish Women’s Archive, resume o trabalho de J. A. Scurlock: esses demônios seriam espíritos de gente que morreu jovem, sem casar e sem filhos, e entravam nas casas atrás de vítimas. Há também a Lamashtu, que ameaçava recém-nascidos. Com o tempo, segundo os estudiosos, as figuras foram se misturando num demônio que seduz adultos e ataca crianças.

Ilustração de uma paisagem mesopotâmica. Cenário do capítulo sobre os demônios da noite, não um mapa arqueológico.

O poema sumério Gilgamesh, Enkidu e o Mundo dos Mortos tem uma árvore na beira do Eufrates. Uma serpente faz ninho nas raízes. A ave Anzu põe os filhotes nos galhos. No tronco, a donzela-fantasma construiu a casa: no sumério, ki-sikil-lil-la-ke. Ela foge para o deserto quando Gilgamesh chega. Em 1938, Samuel Kramer leu o nome como Lilith, e isso se repetiu por décadas. A leitura foi questionada. Segundo o Anchor Bible Dictionary, nem a figura nem a mulher da história são tratadas como Lilith depois do debate. Na tradução de Oxford, ela é a donzela-fantasma. Há um espírito de nome parecido. Dizer que é a primeira Lilith vai além do texto.

O mesmo aconteceu com a Rainha da Noite, relevo de uma mulher alada de pés de pássaro e corujas. Durante décadas disseram que era Lilith. Hoje essa identificação foi em grande parte abandonada. As candidatas são deusas, Ishtar ou Ereshkigal. Nas fontes que o vídeo usa, Lilith não é deusa. É demônio.

Ilustração da árvore na beira do Eufrates, com a casa da donzela-fantasma. Leitura do poema sumério, sem afirmar que a figura é Lilith.

Asas, cabelo e quem dorme sozinho

Num manuscrito do mar Morto, do fim do século I antes de Cristo, os Cantos do Sábio listam espíritos que a oração tenta afastar, e os estudiosos incluem Lilith. É tido como o primeiro uso claro da palavra para um ser sobrenatural em hebraico. O manuscrito está muito danificado.

O Talmude da Babilônia traz três passagens curtas. A primeira pergunta o que fazer quando uma mulher perde um feto com forma de lilith: demônia com asas e rosto humano. Rav Yehuda, em nome de Shmuel, decide que a mãe fica impura como depois de um parto, porque aquilo conta como um filho, só que com asas. A segunda fala de cabelo: uma mulher deixa o cabelo crescer comprido como o de Lilit. A terceira é um aviso de Rabi Hanina: é proibido dormir sozinho numa casa, porque quem dorme sozinho será agarrado pela lilith. Ainda não há Adão. Há um demônio de asas e cabelo longo, ligado à solidão e à perda de um bebê.

Entre os anos 400 e 800, em cidades da Babilônia como Nippur, judeus, cristãos, mandeus e pagãos escreviam encantamentos em tigelas de barro, em aramaico. No centro, muitas vezes, um demônio de mãos amarradas. A lilith é das inimigas mais citadas. Uma tigela fala das liliths que aparecem aos homens com forma de mulher e às mulheres com forma de homem. Outra acusa uma lilith chamada Hablas, neta de Zarni, de ferir meninos e meninas. Algumas usam a linguagem do divórcio: uma carta para romper o laço, como se rompe um casamento. A ideia de casamento já está aí como problema, não como a primeira esposa de alguém.

Ilustração de uma tigela de barro com um demônio de mãos amarradas no centro. Leitura das taças de encantamento, não uma peça de Nippur.

A briga na cama

O Gênesis conta a criação duas vezes. No capítulo 1, verso 27, Deus cria o ser humano, homem e mulher, de uma vez. Dois capítulos depois, Eva sai da costela de Adão. A Britannica registra a leitura posterior de que a mulher do verso 27 era outra, feita do mesmo barro. O texto bíblico não diz isso.

O Alfabeto de Ben Sira é anônimo. A atribuição a Ben Sira é falsa. Os estudiosos datam o livro entre os séculos VII e XI, a maioria no VIII, IX ou X, provavelmente num país muçulmano. A primeira edição impressa conhecida é de Salonica, em 1514. São vinte e duas histórias. Na quinta, o filho do rei adoece e Ben Sira escreve um amuleto com o nome de Deus e de três anjos: Senoy, Sansenoy e Semangelof. Deus cria Adão e depois uma mulher da terra, Lilith. Os dois brigam. Ela não fica por baixo. Ele diz que não fica por baixo dela. Ela responde que são iguais, porque os dois foram feitos da terra. Pronuncia o Nome Inefável e sai voando.

Os anjos a alcançam no meio do mar, onde os egípcios iam se afogar. Ela pede que a deixem: foi criada para adoecer recém-nascidos e tem poder sobre eles nos primeiros dias. Jura que, ao ver os anjos ou os nomes deles num amuleto, não terá poder sobre aquela criança, e aceita que cem dos filhos dela morram por dia. É, até onde o vídeo acompanha, a primeira Lilith com nome, história e casamento com Adão. Gershom Scholem observa que a história parece existir para explicar um costume já comum. Um livro impresso em Amsterdã em 1701, o Sefer Raziel, traz instruções de amuleto contra Lilith.

O livro é uma sátira provocativa e, muitas vezes, misógina. A Lilith nasce numa obra que ri das mulheres. Alguns leem a piada como sendo com Adão, e até com Deus, que manda mensageiros e não a obriga a voltar. Ninguém sabe se o autor queria dizer isso. Não é a “lenda antiga séria” que se repete. Se a história foi inventada ali ou é mais velha, os estudiosos dizem que não dá para saber. O que há é a primeira versão que sobreviveu.

Ilustração do encontro no meio do mar, quando os anjos alcançam Lilith no Alfabeto de Ben Sira. Cena do livro medieval, não da Bíblia.

A Cabala, o espelho e o símbolo

No século XIII, na Cabala, Lilith deixa de ser um demônio de quarto. No Tratado da Emanação da Esquerda, de Isaac ben Jacob ha-Kohen, ela e o anjo Samael surgem como casal do lado maligno. No Zohar, ela tenta seduzir homens para usar a semente deles, teria tentado unir-se a Adão antes de Eva e, depois, planeja a morte de recém-nascidos. O texto recomenda um ritual ao marido antes do sexo e diz que, ao fim dos tempos, ela morará nas ruínas de Roma. A briga por quem fica por cima virou uma teoria sobre o mal.

Ilustração de um livro aberto, no clima do Zohar. Não é uma página do manuscrito.

Em 1808, Goethe publica a primeira parte do Fausto. Na Noite de Valpúrgis, Mefistófeles avisa: é Lilith, a primeira mulher de Adão, e cuidado com o cabelo, porque quando ela prende um homem ele não escapa. A primeira pintura do século XIX que a ilustra é de 1831, de Richard Westall. Dante Gabriel Rossetti começa Lady Lilith por volta de 1864 e a refaz; ela penteia os cabelos e se olha no espelho. Ele a chamou de uma Lilith moderna. O cabelo do Talmude vira vaidade e sedução. De demônio que sequestra bebês, ela vira mulher bonita e perigosa.

Ilustração de um ateliê, no clima do quadro de Rossetti. Não é o Lady Lilith original.

Segundo Lesses, até o fim do século XX a fama era de sequestradora e sedutora. Com o feminismo dos anos 1960 e 1970, ela vira modelo de mulher independente. Judith Plaskow escreveu o midrash A vinda de Lilith. Em 1972, Lilly Rivlin publicou um artigo na Ms. Em 1976 nasce a revista judaica feminista Lilith. Vieram poetas, o festival Lilith Fair e livros de releitura. A frase “somos iguais, os dois fomos feitos da terra” é a mais forte do Alfabeto. Rivlin resumiu: mulheres adotaram o mito e o transformaram em símbolo de autonomia. Essa Lilith tem décadas, não quatro mil anos. E a mesma sátira, minutos depois, a faz jurar a morte de cem filhos por dia. Cada época pegou o que servia.

Lilith, nas fontes do vídeo, não é uma pessoa inventada numa data. É uma ideia em camadas: demônios da noite, uma palavra em Isaías, asas e cabelo no Talmude, tigelas, a briga do Alfabeto, a Cabala, o espelho e, por fim, a mulher livre. Da Bíblia sobra uma palavra num verso sobre ruínas. O resto foi escrito depois.

Perguntas frequentes

Lilith está na Bíblia como esposa de Adão?

Não. Não há Lilith casada com Adão, briga no jardim nem fuga. Em toda a Bíblia hebraica, a palavra lilit aparece uma vez, em Isaías 34:14, numa lista de criaturas de uma terra em ruína. Não há história. Tratar o termo como nome próprio é decisão de quem traduz.

O poema sumério prova que Lilith é antiga?

O poema Gilgamesh, Enkidu e o Mundo dos Mortos fala de uma donzela-fantasma, ki-sikil-lil-la-ke, numa árvore do Eufrates. Em 1938, Samuel Kramer leu o nome como Lilith. Essa leitura foi questionada. Na tradução de Oxford ela é a donzela-fantasma. Dizer que é a primeira Lilith vai além do texto.

Quando surge a Lilith casada com Adão?

No Alfabeto de Ben Sira, livro anônimo datado entre os séculos VII e XI, com preferência pelo VIII, IX ou X. É a primeira versão conhecida com nome, história e casamento com Adão. Gershom Scholem observa que a história parece explicar um costume de amuletos que já existia. O livro é descrito como sátira, muitas vezes misógina.

A Lilith feminista é a mesma das fontes antigas?

É a mais nova. Segundo Rebecca Lesses, até o fim do século XX Lilith tinha fama de sequestradora de crianças e sedutora. A virada é dos anos 1960 e 1970: o midrash de Judith Plaskow, o artigo de Lilly Rivlin na Ms. em 1972 e a revista Lilith, de 1976. A frase “somos iguais” vem da sátira medieval, que também a faz jurar o mal aos recém-nascidos.

Fontes

  1. Isaías 34:11–15, Revised JPS (2023) (abre em uma nova aba)
  2. Talmude da Babilônia, Eruvin 100b, Niddah 24b e Shabbat 151b (abre em uma nova aba)
  3. Gilgamesh, Enkidu e o Mundo dos Mortos (ETCSL 1.8.1.4) (abre em uma nova aba)
  4. Rebecca Lesses, Lilith, Jewish Women's Archive (abre em uma nova aba)
  5. Britannica, Lilith (abre em uma nova aba)
  6. Alfabeto de Ben SiraStern e Mirsky, Rabbinic Fantasies (1990); Yassif, Tales of Ben Sira in the Middle Ages (1984).
  7. J. A. Scurlock, Baby-snatching demons (Incognita 2, 1991)
  8. Montgomery, Aramaic Incantation Texts from Nippur (1913); Naveh e Shaked, Amulets and Magic Bowls (1987)
  9. Gershom Scholem, Lilith, em Kabbalah (1974); Tishby, The Wisdom of the Zohar
  10. Goethe, Fausto (1808); Dante Gabriel Rossetti, Lady Lilith; Judith Plaskow, The Coming of Lilith (1974)

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