Roma

Para onde foram os soldados de Roma quando o Império ruiu?

Para onde foram os soldados de Roma quando o Império do Ocidente acabou? O destino mudou conforme quem ainda podia pagar, dar ordens e manter o posto.

Para onde foram os soldados de Roma quando o Império ruiu? A pergunta do vídeo é o que aconteceu com os homens que ainda serviam no exército do Ocidente: quem passou a pagá-los, se voltaram para casa, se ficaram nos fortes ou se foram lutar por outros reis. O caminho acompanhado fica entre o último pagamento de Roma e o serviço aos novos governantes. O ano de 476 não foi uma dispensa geral, nem o fim do Império Romano do Oriente. Onde o relato não permite saber o destino de um homem, a dúvida permanece.

O governo romano perdeu o controle das regiões em momentos diferentes. Em alguns lugares, os soldados ficaram sem apoio antes mesmo de 476. O imperador ainda podia ocupar o trono na Itália enquanto, numa fronteira distante, o pagamento já tinha parado. Um Short do canal resume o primeiro caso com outra pergunta: o que um soldado faz quando ninguém mais paga o salário dele?

Ilustração de um soldado idoso com espada e escudo, diante de um forte e de uma estrada ao entardecer. Figura anônima, não um retrato.

O soldo que não veio

O lugar se chamava Batavis, onde hoje fica Passau, no sul da Alemanha. A cidade estava junto ao Danúbio, rio que naquele trecho ajudava a marcar a fronteira romana, ao norte dos Alpes, longe do governo na Itália. Quem relata é Eugípio, monge que escreveu a Vida de Severino no começo do século seis. Ele não dá o ano exato. Conta que o sustento público das tropas daquela fronteira havia desaparecido, mas os soldados de Batavis ainda permaneciam no posto.

Alguns partiram para a Itália, buscando o pagamento dos companheiros, e foram mortos no caminho. Eugípio apresenta a descoberta das mortes como um milagre de Severino. Segundo ele, o religioso estava lendo na cela quando começou a chorar e mandou os presentes correrem ao rio, anunciando sangue na água. O autor atribui a Severino um conhecimento sobrenatural. Não diz que ele tinha presenciado o ataque. Depois, os corpos teriam sido encontrados na margem. Para quem ficou em Batavis, os companheiros enviados atrás do pagamento não voltariam. A tropa ainda existia. O posto ainda estava ali. A tentativa de recuperar o sustento tinha acabado em morte.

Comida e dinheiro

Para continuar no posto, aqueles soldados precisavam de dinheiro, alimento ou outro sustento. Alguém recolhia os impostos, outro organizava a entrega, e as estradas precisavam continuar abertas. Quando o governo perdia território, perdia o acesso aos recursos dali. Para um soldado numa fronteira distante, chegava a época de receber e nada vinha.

A história de Severino também mostra um oficial chamado Mamertino, com o título de tribuno. Quando Severino pede que ele persiga saqueadores, Mamertino responde que dispõe de poucos soldados. Ainda havia um comandante e homens armados. A capacidade de proteger a região estava diminuindo. Uma guarnição pequena e isolada podia ter pouca escolha. Uma tropa reunida perto do governo podia pressionar o próprio comandante, porque experiência de combate e armas eram o que qualquer pretendente ao poder precisava. Na Itália, essa força de negociação teve uma consequência enorme.

Ilustração de um acampamento sob chuva, com tendas, carroças e um grupo em volta de um homem que aponta. Cena artística, não um registro do ano 476.

Quem podia prometer?

Em 476, quem controlava o governo na Itália era o general Orestes. Ele tinha expulsado o imperador Júlio Nepos e colocado o próprio filho no trono: Rômulo Augústulo, ainda muito jovem. Nepos continuava reivindicando o título, mas era Orestes quem mandava. Para se manter, dependia de um exército com homens de diferentes origens, entre eles grupos que serviam ao poder romano como aliados militares.

Esses soldados exigiram uma parte das terras italianas. Segundo Procópio, o pedido era de um terço. O relato não permite dizer que todos passavam pela mesma falta de pagamento dos homens de Batavis. Na Itália, a disputa era pelas condições em que aqueles grupos continuariam servindo. Terra significava produção, renda e a possibilidade de se estabelecer. Orestes recusou. Atender atingiria os proprietários e os recursos do governo. Recusar punha contra ele os homens de quem dependia.

Odoacro ofereceu o acordo que Orestes tinha negado. Recebeu o apoio das tropas, venceu a disputa e tomou o poder. Orestes foi morto. Rômulo perdeu o trono. Segundo o Anônimo Valesiano, o jovem foi poupado e recebeu uma renda para viver na Campânia, no sul da Itália. Os homens armados que tinham provocado a queda continuaram necessários ao novo governante. A deposição aconteceu pela ação de tropas que estavam decidindo a quem obedecer. Odoacro passou a governar como rei e precisava recompensar os apoiadores.

O que exatamente foi distribuído continua em discussão. Procópio fala em terras. Walter Goffart defendeu que certos acordos desse período envolviam parcelas da arrecadação dos impostos, em vez da retirada direta de um pedaço de cada propriedade. Outros estudiosos discordam ou propõem situações diferentes conforme a região. Receber uma propriedade e receber parte dos impostos são coisas distintas. Nos dois casos, o serviço militar passava a ser sustentado por um acordo com o novo poder.

Outro rei, outro comando

Manter os soldados na Itália não significava recuperar todas as antigas fronteiras. No Nórico, território que abrangia parte da atual Áustria, as comunidades romanas passaram a depender de negociações com os rúgios. Severino aparece intermediando acordos com o rei rúgio Feva. Depois, Odoacro entrou em guerra contra os rúgios. No fim dos anos 480, seu irmão Onulfo recebeu a ordem de levar as populações romanas daquela região para a Itália. Eugípio descreve a partida dos habitantes das cidades do Danúbio. O relato não permite acompanhar cada soldado que ainda pudesse estar entre eles. Mostra que a solução adotada era retirar aquelas comunidades.

Em 489, Teodorico, rei dos ostrogodos, entrou na península com seu exército, acompanhado por famílias. O imperador do Oriente, Zenão, havia incentivado a campanha contra Odoacro. A guerra durou anos. Em 493, Odoacro foi morto e Teodorico assumiu o poder. Procópio afirma que Teodorico recebeu a adesão de sobreviventes das forças inimigas. O relato inclui violência e mortes. Não houve lugar garantido para todos. Para quem sobrevivia e era aceito, servir ao vencedor permitia continuar vivendo da própria experiência militar. Em menos de vinte anos, a Itália tinha passado de Orestes para Odoacro e de Odoacro para Teodorico. Teodorico herdou a obrigação de alimentar as tropas e de colocá-las onde fossem úteis, entre outros lugares nas passagens dos Alpes.

Ilustração de soldados junto a um portão de madeira e de homens com um cavalo do lado de fora. Cena de negociação, sem identificar pessoas históricas.

Sessenta nos Alpes

Perto de Aosta, no noroeste da atual Itália, sessenta homens aparecem numa ordem do governo de Teodorico. Cassiodoro, funcionário que escrevia em nome do rei, reuniu parte da correspondência oficial nas Variae. Na carta cinco do segundo livro, Teodorico manda um oficial chamado Fausto garantir que esses soldados recebam as rações sem atraso. O documento lembra a dureza do serviço na fronteira. O governo imperial do Ocidente já tinha acabado. Eles continuavam guardando uma entrada da Itália, e havia um rei cobrando de seus funcionários o sustento daquela guarda.

A diferença em relação a Batavis era a relação com o poder que os mantinha. Em Batavis, os soldados tinham enviado companheiros atrás de um pagamento que não chegava. Em Aosta, um governante expede uma ordem para abastecer o posto. A carta registra o que deveria acontecer. Não há o recibo da entrega nem a história de cada um dos sessenta. Também não se sabe se algum deles tinha servido antes de 476. O documento mostra que o serviço de fronteira podia continuar sob outro governo. A carta não diz que tinham se tornado donos independentes da passagem ou que viviam cobrando pedágio por conta própria.

Até a organização desse exército é discutida. Michael Whitby enfatiza a substituição das forças imperiais ocidentais pelas forças dos novos reinos. Guy Halsall defende que Teodorico mantinha uma força permanente e remunerada, apoiada também no sistema romano de impostos.

Ilustração de um desfiladeiro, com um homem carregando uma caixa, uma carroça de mantimentos e uma torre no alto do caminho. Leitura do abastecimento nos Alpes, não o documento de Cassiodoro.

Soldado de Roma

Trocar de comandante não apagava a experiência de um soldado. O legionário de armadura de tiras de metal e escudo retangular pertence sobretudo à imagem dos primeiros séculos do Império. Os homens que atravessaram o fim do poder romano no Ocidente viviam muito depois, num exército que já tinha mudado. Vedran Bileta observa que separar todos em dois grupos fechados, romanos de um lado e bárbaros do outro, distorce aquela realidade. Um homem podia ter nascido fora do território imperial e passado anos servindo ao governo romano, ou obedecer a um chefe de origem estrangeira dentro de uma força que defendia interesses de Roma.

Acompanhar cada unidade durante a mudança é difícil. A Notitia Dignitatum parece um mapa completo do exército, mas reúne partes escritas e atualizadas em épocas diferentes. Ruth O’Hara estudou essas camadas. Por isso a lista não serve como contagem dos soldados que ainda estavam nos postos em 476. Houve incorporação de homens aos novos exércitos. Reconstruir quantos eram, de onde vieram e quais unidades conservaram os nomes é muito mais difícil.

Guardaram os estandartes

Na Gália, Procópio conta que havia soldados romanos sem como regressar a Roma e sem querer se entregar a certos adversários. Acabaram se entregando aos Arboríquios e aos grupos que o autor chama de germanos, levando seus estandartes e o território que tinham guardado. Estandartes identificavam as unidades. No relato, esses soldados negociaram a incorporação conservando uma identidade coletiva. Procópio diz que os descendentes ainda eram reconhecidos pelas antigas legiões dos antepassados, entravam em batalha com seus estandartes e mantinham costumes romanos, inclusive no vestuário. Menciona até os sapatos.

O texto foi escrito no século seis, depois dos acontecimentos. Procópio não dá uma lista das unidades nem uma data para o acordo. A identificação dos Arboríquios e o encaixe do episódio na formação do poder franco continuam discutidos. Ele também não diz que esses homens formaram uma guarda de elite dos reis francos. O que descreve é a incorporação de grupos militares e a preservação de costumes.

Na Britânia, o domínio romano terminou antes da queda do imperador na Itália. Os anos 407 e 410 são marcos dessa retirada de poder. James Gerrard lembra que essas datas não representam uma partida de todos os romanos no mesmo dia. Os vestígios permitem acompanhar mudanças nos fortes e nas comunidades, mas raramente o destino de um soldado específico.

Roma continuou

O Império tinha uma parte oriental, governada a partir de Constantinopla, onde hoje fica Istambul. Quando Rômulo perdeu o trono, em 476, o imperador do Oriente continuou governando, com territórios, impostos e meios de manter exércitos. Um soldado a serviço de Constantinopla teve um destino institucional diferente do dos homens de Batavis.

Em 533, quase sessenta anos depois, Justiniano enviou um exército pelo mar para o norte da África. O comandante era Belisário. O objetivo era derrotar o reino dos vândalos, então governado por Gelimer. A campanha terminou com a derrota desse reino. Procópio acompanhou a expedição e descreveu uma frota com tropas, cavalos e suprimentos. Os homens de Belisário pertenciam a outra geração. Não eram os soldados que tinham visto Rômulo cair. Serviam, porém, a uma instituição imperial que continuava romana. A resposta depende de onde o homem estava servindo. O fim do governo ocidental alterou o destino de suas tropas. A sobrevivência do governo oriental permitiu que o exército romano continuasse marchando.

Quem podia sustentar?

Parte continuou no serviço militar, sob outros governantes: os que apoiaram Odoacro, os sobreviventes que Teodorico aceitou, os sessenta de Aosta, os grupos da Gália que Procópio descreve com estandartes e costumes. Houve mortos e deslocados. Os enviados de Batavis morreram no caminho do pagamento. No Danúbio, comunidades romanas deixaram as cidades por ordem do governante da Itália. Para os demais, faltam nomes. As fontes não contam quantos passaram a cultivar a terra, quantos acharam outro serviço ou quantos seguiram lutando.

Os acordos de terras e rendas amarravam o sustento a um rei e a um lugar. Essa reorganização entrou na formação das sociedades da primeira Idade Média. A cavalaria medieval veio numa história muito mais longa: o vídeo não traça uma linha de cada legionário até um cavaleiro. No Oriente, o Império continuou mantendo as tropas. Os soldados não desapareceram juntos. Outro texto do canal também olha para Roma por um gesto miúdo, as favas da Lemúria, em não olhar para trás. Séculos antes, outro poder também escreve o fim de um rei ausente: Nabonido.

Perguntas frequentes

O ano de 476 dispensou todos os soldados romanos?

Não. O vídeo diz que 476 não foi uma dispensa geral nem o fim do Império Romano do Oriente. Em algumas fronteiras o pagamento já tinha parado antes, enquanto o imperador ainda ocupava o trono na Itália. O destino mudou conforme o lugar e conforme quem ainda podia pagar e dar ordens.

O que aconteceu com os soldados de Batavis?

Eugípio, na Vida de Severino, conta que o sustento das tropas daquela fronteira do Danúbio tinha desaparecido, mas os homens de Batavis, onde hoje fica Passau, ainda estavam no posto. Alguns partiram para a Itália buscar o pagamento e foram mortos no caminho. Eugípio apresenta a descoberta das mortes como um milagre de Severino e não diz que o monge presenciou o ataque.

Os soldados da Itália receberam terras em 476?

Procópio diz que o pedido feito a Orestes era de um terço das terras italianas. Orestes recusou. Odoacro ofereceu o acordo, recebeu o apoio das tropas e tomou o poder. Walter Goffart defendeu que certos acordos do período envolviam parcelas da arrecadação, não a retirada direta de um pedaço de cada propriedade. Outros estudiosos discordam. O vídeo não fecha a questão.

Os sessenta homens de Aosta eram o exército de 476?

Não dá para dizer. Uma carta de Cassiodoro, nas Variae, registra a ordem de Teodorico para que Fausto garantisse as rações desses sessenta homens perto de Aosta, sem atraso. A carta mostra o que deveria acontecer. Não há recibo da entrega nem a história de cada homem, e o texto não diz se algum deles já servia antes de 476.

O Império Romano acabou no Oriente junto com Rômulo?

Não. Quando Rômulo perdeu o trono na Itália, o imperador do Oriente continuou governando a partir de Constantinopla. Em 533, quase sessenta anos depois, Justiniano enviou Belisário com uma frota ao norte da África contra o reino vândalo de Gelimer. Procópio acompanhou a expedição. Os homens de Belisário eram de outra geração e ainda serviam a uma instituição imperial romana.

Fontes

  1. Eugípio, Vida de Severino (abre em uma nova aba)Batavis, a viagem pelo pagamento, Mamertino e a retirada das comunidades do Danúbio. O vídeo usa os capítulos 4, 20, 31 e 44.
  2. Anônimo Valesiano, parte 2 (abre em uma nova aba)Rômulo poupado, com uma renda para viver na Campânia.
  3. Procópio, Guerras (abre em uma nova aba)O terço das terras, a adesão de sobreviventes a Teodorico, os estandartes na Gália e a expedição de Belisário em 533.
  4. Cassiodoro, Variae (abre em uma nova aba)A carta 5 do livro 2, sobre as rações dos sessenta homens perto de Aosta.
  5. Michael Whitby, The army, c. 420–602 (abre em uma nova aba)
  6. Vedran Bileta, The last legions (2016) (abre em uma nova aba)
  7. Guy Halsall, The Ostrogothic Military (2016) (abre em uma nova aba)
  8. James Gerrard, The Ruin of Roman Britain (2013)Os marcos de 407 e 410 na Britânia não são a partida de todos os romanos no mesmo dia.
  9. Walter GoffartCitado no vídeo por defender que certos acordos do período envolviam parcelas de impostos, não a entrega direta da terra. Outros estudiosos discordam.

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