Quem eram os Povos do Mar?
Quem eram os Povos do Mar? O nome é moderno. Ramsés III gravou a vitória em Medinet Habu, e cada nome na parede aponta para uma história diferente.
Quem eram os Povos do Mar? O nome sugere um povo só, saído do mar em direção ao Egito. O vídeo do Eras em Cinzas começa desfazendo isso: “Povos do Mar” é um nome que usamos hoje. Os egípcios deixaram nomes diferentes gravados nas paredes. No tempo de Ramsés III, no fim do século XII antes de Cristo, o Egito já era antigo. As pirâmides de Gizé estavam de pé havia séculos, e o reino continuava ligado a cidades do Mediterrâneo. Outro texto do canal fica nessa paisagem, o vazio detectado na Grande Pirâmide, muito antes dessa crise. E, do outro lado do deserto, um rei posterior também some das festas da capital: Nabonido.
Navios levavam madeira, cobre, azeite e cerâmica. Reis trocavam cartas e presentes. Se uma rota fechasse, não era só uma cidade que perdia produtos. Quando as notícias de ataques chegaram, a pergunta do faraó era prática: quem está vindo e onde vai atacar?

Os barcos no horizonte
Ramsés III contou a história nas paredes do templo de Medinet Habu. Ali aparecem barcos e guerreiros, e o faraó diz que uma coalizão avançou. O Egito a deteve, segundo o relato. Uma inscrição situa o conflito no oitavo ano do reinado. Isso não significa que todos os ataques da crise tenham sido naquele ano. O texto fala de um ataque em terra e de outro no mar. Nos relevos, o rei está no centro, maior que os inimigos. A imagem celebra o faraó. Os nomes e as cenas importam, mas o relato é o lado egípcio. Não há, na mesma parede, a versão de quem perdeu. Os grupos nem aparecem sempre juntos. Pode ter havido uma coalizão numa campanha sem que formassem um povo só.

Ugarit e as cartas
Antes da batalha egípcia, o vídeo olha para Ugarit, na costa da atual Síria. Nas cartas que sobreviveram, governantes pedem ajuda e falam de ameaças por terra e por mar. Não temos a conversa inteira. Ugarit era um porto ligado ao interior e a outras partes do Mediterrâneo. Em algumas cartas a preocupação é com navios; em outras, com a falta de apoio.
Um estudo de 2011 comparou cartas, camadas arqueológicas e datações. Os autores propuseram que algumas destruições no norte do Levante aconteceram por volta de 1194 a 1190 antes de Cristo. É uma cronologia daquele conjunto de vestígios. Ugarit não deixou uma explicação de como terminou. As cartas eram mensagens urgentes, não relatos completos. A cidade foi destruída, e os destroços não trazem o nome de quem fez isso.

No Egito, entre os nomes preservados em Medinet Habu estão Peleset, Tjeker, Shekelesh, Denyen e Weshesh. Os Sherden aparecem em registros de conflitos marítimos e, em outros momentos, serviram aos egípcios. Ramsés quis que a guerra fosse lembrada como vitória. O Egito continuou existindo. Os nomes ainda deixam perguntas: povos inteiros, soldados, ou uma aliança daquela campanha?
Nem tudo aconteceu de uma vez. Alguns centros foram destruídos. Outros mudaram de governo. Em alguns lugares as pessoas continuaram, com a cidade organizada de outro jeito. Guerra e deslocamento podem se misturar. Os grupos registrados pelos egípcios podem ter feito parte da crise, ou ter saído de casa por causa dela.
Seca e o oeste
E a seca? Uma equipe liderada por David Kaniewski estudou pólen no Chipre e, em 2013, propôs um período prolongado de aridez. O pólen reconstrói o ambiente. Sozinho, não conta quem partiu nem se algum exército marchou por falta de comida. Uma seca podia piorar uma crise que já tinha guerras, disputa política e comércio interrompido. Cada reino lidava com isso de um jeito. Nenhum fator isolado explica tudo. Por que a região entrou em crise é uma pergunta. Quem eram os nomes do templo é outra.
Para a origem, os pesquisadores comparam nomes e objetos. Um nome egípcio pode lembrar outro, de outra língua. Uma cerâmica pode aparecer longe de onde era comum, e o objeto viajava sem que o dono se mudasse. Os escribas registraram os nomes como conseguiram ouvi-los. Os nomes que hoje lemos em português passaram pelo ouvido egípcio e por milhares de anos de leitura. Às vezes a ligação é forte. Às vezes depende quase toda da semelhança entre duas palavras.
Sherden e Shekelesh
Os Sherden aparecem ligados a conflitos no mar. Cerca de um século antes de Ramsés III, na batalha de Kadesh, Sherden capturados lutaram no exército de Ramsés II. Exércitos antigos recrutavam prisioneiros e mercenários. “Pirata” também é uma palavra difícil: cartas falam de navios bloqueados e de guerras entre governantes, e nem sempre dá para separar. Os Sherden podiam ser adversários num relato e soldados egípcios em outro.
Os Shekelesh já foram ligados à Sicília porque os nomes se parecem. O registro egípcio dá “Shekelesh”. O caminho até a Sicília é interpretação. A distância temporal é grande, e semelhança de som não prova continuidade. A hipótese é conhecida. Não é uma viagem certa.
Lukka, Carcisa, Ekwesh e Teresh
Lukka ficava na costa da Anatólia, na atual Turquia. Cartas antigas falam de ataques a embarcações. Jeffrey Emanuel comparou esses relatos: o que um rei chamava de pirataria podia estar ligado a uma guerra entre cidades. Ver guerreiros numa embarcação não basta para chamar todos de piratas. Algumas cartas são muito anteriores a Ramsés III. Mostram que o Mediterrâneo já tinha uma história longa de guerra no mar. Não descrevem direto a frota que chegou ao Egito.
Carcisa, também chamada de Karkisa em algumas discussões, pode estar ligada a povos da Anatólia. O texto egípcio não explica quem eram nem confirma que todos os registros falam do mesmo grupo. As fontes não dizem: este grupo é o mesmo da batalha de Ramsés.
Com os Ekwesh, a hipótese mais conhecida é a ligação com os aqueus do mundo egeu. Os nomes se parecem. Há também uma inscrição que descreve prisioneiros por características corporais, e alguns pesquisadores a usam para questionar a ligação. O texto é de guerra e a interpretação é debatida. Mesmo que os Ekwesh fossem aqueus, isso explicaria um nome, não os outros. Não dá para usar uma tradição grega posterior sobre Troia como documento de identidade dos Ekwesh.
Teresh foi relacionado a povos do Mediterrâneo ocidental conhecidos por textos posteriores. A distância no tempo e as mudanças de língua deixam a comparação frágil. Ainda não dá para apontar um lugar e dizer que vieram dali. Os documentos egípcios guardaram o nome.
Peleset e os outros três
Peleset é dos nomes mais conhecidos. Em Medinet Habu está entre os inimigos de Ramsés III. Em textos posteriores, os filisteus vivem em cidades da costa sul do Levante, como Ashkelon. Em Ashkelon, objetos e costumes mudam nesse período. Em 2019, um estudo analisou dez indivíduos de épocas diferentes. Nos mais antigos apareceu uma contribuição genética relacionada a populações europeias. Nos posteriores, esse sinal não aparecia da mesma forma. Combina com a chegada de gente de fora àquela cidade. São dez indivíduos de um lugar. Não é um povo inteiro preservado no DNA, nem a origem de todos os grupos da lista. É uma evidência independente das inscrições, e responde uma pergunta local.

Os Tjekker aparecem em textos egípcios e, numa fonte posterior, ligados à cidade costeira de Dor. Essa fonte é muito depois da campanha de Ramsés. Pode ajudar a seguir o nome no tempo, sem mostrar o caminho inteiro desde o Egito. Danuna já foi relacionado a Adana, na Cilícia, pelo nome e pela geografia. Weshesh continua difícil de situar. Nos três casos, há nomes em listas, sem uma narrativa própria de quem eram ou para onde foram.
O que a vitória não resolveu
Ramsés III queria que o Egito lembrasse da vitória. As paredes fizeram isso. Os nomes não deixaram um relato tão completo quanto o do faraó. Alguns grupos podem ter migrado, outros lutado ou servido como mercenários. As cidades mudaram de jeitos diferentes. O Egito sobreviveu, embora o poder tenha mudado. “Colapso” não quer dizer que todos desapareceram do mesmo modo. Outro fim de império, séculos depois e no Ocidente, é o dos soldados de Roma: também ali o marco político não apaga cada homem.
Os registros de Ramsés contam que ele enfrentou grupos vindos de fora e os deteve. Sherden, Shekelesh, Peleset e os outros nomes apontam para histórias diferentes. O faraó registrou a vitória. Os nomes ficaram na parede.
Perguntas frequentes
Os Povos do Mar eram um povo só?
O nome é moderno. Os egípcios gravaram nomes diferentes. O vídeo trata a possibilidade de uma coalizão numa campanha sem transformar esses grupos num único povo. Alguns textos falam de gente vinda de ilhas; outros, de conflitos em terra e no mar.
O que Medinet Habu prova?
Ramsés III registrou ali barcos, guerreiros e uma vitória, com o rei maior que os inimigos. Uma inscrição situa o conflito no oitavo ano do reinado. O relato é o lado egípcio: não há, na mesma parede, a versão de quem perdeu. Os nomes são fonte importante, contados como o faraó quis ser lembrado.
A seca explica o fim da Idade do Bronze?
Uma equipe de David Kaniewski estudou pólen no Chipre e, em 2013, propôs um período longo de aridez. O pólen reconstrói o ambiente. Sozinho, não diz quem partiu nem se um exército marchou por falta de comida. Até agora, nenhum fator isolado explica tudo.
Os Sherden lutaram contra o Egito ou por ele?
Os dois. Aparecem ligados a conflitos no mar e, cerca de um século antes de Ramsés III, Sherden capturados lutaram no exército de Ramsés II em Kadesh. Exércitos antigos recrutavam prisioneiros e mercenários. A identidade do grupo não diz, sozinha, de que lado cada pessoa lutava.
O DNA de Ashkelon identifica todos os Povos do Mar?
Não. O estudo de 2019 analisou dez indivíduos de épocas diferentes em Ashkelon. Nos mais antigos apareceu uma contribuição genética ligada a populações europeias; nos posteriores, esse sinal não aparecia do mesmo jeito. Ajuda a entender aquela cidade, não a origem de todos os nomes da lista.
Fontes
- Edgerton e Wilson, Historical Records of Ramses III (Medinet Habu) (abre em uma nova aba)
- Kaniewski et al. (2011), The Sea Peoples, from Cuneiform Tablets to Carbon Dating (abre em uma nova aba)Cartas, camadas e datações; proposta de destruições no norte do Levante por volta de 1194 a 1190 a.C.
- Kaniewski et al. (2013), Environmental Roots of the Late Bronze Age Crisis (abre em uma nova aba)
- Ramsés II em Kadesh (abre em uma nova aba)
- Jeffrey P. Emanuel (2020), Sea Raiders in the Amarna Letters? (abre em uma nova aba)
- Feldman et al. (2019), DNA antigo e os filisteus do início da Idade do Ferro (abre em uma nova aba)
