Bíblia

Como morreram os 12 apóstolos?

Como morreram os 12 apóstolos? O que a Bíblia conta, o que vem de textos posteriores e onde as versões sobre o fim de cada um não concordam.

Como morreram os 12 apóstolos? A pergunta cabe inteira numa busca, e o vídeo do Eras em Cinzas tenta respondê-la nome por nome. A resposta, porém, não é uma lista única. Discípulo, no sentido da palavra usado no começo do vídeo, é quem segue um mestre. Apóstolo é quem é enviado numa missão. Nem toda morte está na Bíblia. Parte vem de Atos e dos Evangelhos. Outra parte vem de textos apócrifos, de historiadores antigos e de tradições cristãs registradas séculos depois. Onde as versões não concordam, essa diferença também entra na história.

Ilustração de um homem de costas num salão de arcos, com moedas caindo num facho de luz. Leitura artística de Judas, não um retrato.

Judas Iscariotes

O vídeo começa pelo nome que ficou associado a traidor. No Evangelho de Mateus, Judas reconhece o que fez. Em vez de um arrependimento descrito como atitude submissa, o relato seguido no vídeo diz que ele decidiu tirar a própria vida. O dinheiro da traição teria servido para comprar um campo. Os relatos se misturam, e o resumo apresentado é o enforcamento. Esse é o fim contado para Judas Iscariotes. Ele morre antes de Tiago, filho de Zebedeu. Por isso Tiago, embora seja o primeiro dos doze cujo martírio Atos narra, não foi o primeiro do grupo a morrer.

Mateus

Mateus era cobrador de impostos e estava trabalhando quando Jesus o chamou. A morte dele não está narrada na Bíblia. Em livros apócrifos há mais de uma história. Os Atos e Martírio de Mateus contam que tentaram matá-lo com fogo. As chamas não o consumiram. Ele sobreviveu à tentativa, fez uma oração e entregou o espírito. O vídeo marca que essa história tem milagres e que é assim que o livro conta o fim. A versão de que ele foi queimado vivo não é essa: nela, ele não morre nas chamas. Clemente de Alexandria registra que outro autor defendia que Mateus não morreu como mártir. Não há, portanto, uma única resposta, mesmo quando uma das histórias circula como se fosse a certa.

Tomé

Tomé ficou conhecido por precisar ver para crer. Não estava com os outros quando Jesus apareceu depois da ressurreição e disse que precisava ver as marcas. O Evangelho segue até o encontro e a declaração de fé, mas a fama da dúvida permaneceu. Nas tradições seguintes, ele teria ido à Índia levar a fé. Essa viagem está nos Atos apócrifos de Tomé. No fim dessa história, um governante chamado Misdaeus manda matá-lo. Soldados o levam a um monte. Ele faz uma oração e é morto com lanças. O vídeo é explícito: quem conta a execução com lanças é esse livro, não a Bíblia. Há histórias que também o colocam na Pártia, sem que o caminho inteiro possa ser acompanhado.

Ilustração de um viajante de costas, à beira do mar, olhando um navio ao longe. Imagem da viagem atribuída a Tomé, não um mapa.

Pedro

Pedro é dos que mais aparecem nos Evangelhos, e mesmo assim a morte não está toda ali. No Evangelho de João, Jesus anuncia que, na velhice, outra pessoa o levaria para onde ele não desejava ir. O próprio Evangelho explica que isso indicava a morte. Antes, quando Jesus foi preso, Pedro negou que o conhecia. Depois da ressurreição, continua entre os seguidores e ganha destaque em Atos.

A cruz de cabeça para baixo é outra camada. Uma tradição antiga, contada por Eusébio a partir de Orígenes, coloca Pedro em Roma, crucificado de cabeça para baixo por pedido dele. O pedido também aparece nos Atos apócrifos de Pedro. Nesse livro, ele tenta sair de Roma, encontra Jesus no caminho e pergunta para onde ele vai. É o “Quo vadis?”, “para onde vais?”. A resposta o faz voltar. A explicação mais conhecida, de que ele não se achava digno de morrer como Jesus, não é a desse livro: ali a explicação é simbólica e envolve a condição humana.

Há um Short do canal com a pergunta direta: Pedro foi mesmo crucificado de cabeça para baixo? O texto longo é que separa o anúncio do Evangelho de João e o detalhe da tradição.

Ilustração de uma cruz em pé sobre um monte, sem figura humana. A imagem não mostra a cruz invertida da tradição sobre Pedro.

André

André era irmão de Pedro. No Evangelho de João, é ele quem leva Pedro até Jesus. Uma história apócrifa conta o conflito com um governante chamado Egeates, em Patras, na Grécia, e a condenação à cruz. O relato diz que André continuou falando enquanto sofria e recusou uma tentativa de libertá-lo. Na Legenda Áurea, coleção medieval de vidas de santos, a história tem dois dias de pregação na cruz. A cruz em X, a que ficou conhecida como cruz de André, não está nessa história apócrifa. O vídeo diz que essa imagem apareceu depois, na tradição.

Ilustração de duas cruzes de madeira encostadas num muro de pedra: uma em pé e outra em X, formato que a tradição associou a André.

Tiago, filho de Zebedeu

Tiago era irmão de João e filho de Zebedeu. O nome do pai importa porque há outro Tiago entre os doze. Os dois irmãos aparecem nos Evangelhos nas redes, com o pai, quando Jesus os chama. Em Atos, Herodes persegue membros da comunidade e manda matar Tiago à espada. O versículo é curto: diz que foi à espada e não descreve a decapitação que os resumos costumam acrescentar. Herodes, ao ver que aquilo agradava a certos grupos, manda prender Pedro também. Tiago já estava morto.

João

João, irmão de Tiago, não teria terminado do mesmo modo. A tradição mais conhecida diz que ele chegou à velhice. Isso não significa que ninguém tenha tentado matá-lo. Tertuliano conta que foi colocado em óleo fervente, saiu ileso e foi enviado ao exílio numa ilha.

No Evangelho de João, depois da fala sobre a morte de Pedro, alguém pergunta pelo discípulo amado. A resposta deu origem à ideia de que ele não morreria, mas o Evangelho corrige: Jesus não tinha dito que aquele discípulo seria imortal. A tradição identifica esse discípulo com João. Eusébio conta que João morreu em Éfeso. Nos Atos apócrifos de João, ele se despede, ora, deita numa cova preparada e entrega o espírito. Há outras versões desse final. O vídeo ainda lembra que não dá para dizer que todos os outros tiveram morte violenta: no caso de Mateus, já apareceu uma versão sem martírio.

Ilustração de um homem idoso de cabelos brancos, sentado com um rolo numa cela de pedra. Leitura artística da velhice atribuída a João.

Filipe

Há dois Filipes, e o vídeo pede para não misturá-los. Um é o apóstolo. Outro é o Filipe que Atos apresenta como evangelista. Aqui se fala do apóstolo, aquele que no Evangelho de João é chamado por Jesus e leva Natanael até ele. Nos Atos apócrifos de Filipe, a história termina em Hierápolis, na região da atual Turquia. Bartolomeu e Mariamne participam do relato. Filipe é suspenso de cabeça para baixo, com ferimentos nos tornozelos e nos calcanhares. O livro também conta milagres durante o episódio.

Bartolomeu

Bartolomeu aparece na história de Filipe, mas o fim mais conhecido é outro. Uma tradição diz que ele foi esfolado vivo. Daí a pele que algumas imagens religiosas colocam junto dele. No Martírio de Bartolomeu, um rei manda golpeá-lo com varas e depois decapitá-lo. Não há esfolamento. A Legenda Áurea conta a retirada da pele e também reconhece versões de crucificação e decapitação. O autor tentou juntar os finais numa sequência, como se todas as etapas tivessem acontecido. O vídeo diz que não há confirmação disso. O esfolamento ficou famoso, não está na Bíblia e não é o final de todos os relatos.

Tiago, filho de Alfeu

O filho de Zebedeu não é este. Este é filho de Alfeu. Ainda existe Tiago, irmão de Jesus. A história de ser lançado de uma parte do templo e morto com um bastão exige saber de qual Tiago se fala. Josefo conta uma condenação ao apedrejamento por iniciativa do sumo sacerdote Anano. Chama o homem de Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo. Não diz que era filho de Alfeu e, naquela passagem, não descreve a queda do templo nem o golpe de bastão. Algumas tradições identificam as pessoas. Outras leituras as separam. O fim do filho de Alfeu continua incerto. Achar uma morte de Tiago não resolve qual Tiago estava ali.

Simão, o Zelote, e Judas Tadeu

Simão, o Zelote, não é Pedro. Uma tradição diz que foi serrado, e por isso a serra aparece ao lado dele em representações religiosas. Na Legenda Áurea, Simão participa de uma missão com Judas e os dois acabam mortos a golpes. O mesmo capítulo reúne uma versão de crucificação de Simão. O vídeo não escolhe qual aconteceu.

Esse Judas não é Iscariotes, que já tinha morrido. É Judas Tadeu. Nas listas dos apóstolos os nomes variam: algumas trazem Tadeu, outras Judas de Tiago, e a tradição costuma tratar esses nomes como o mesmo apóstolo. No Evangelho de João também aparece um Judas com a ressalva de que não era Iscariotes. A Legenda Áurea conta o martírio junto com Simão. Outra tradição, preservada pela Igreja Ortodoxa na América, diz que ele foi crucificado e atingido por flechas na região do Ararat. Também é lembrado como mártir, com um fim diferente.

Matias e Paulo

Judas Iscariotes deixou uma vaga. Atos conta a escolha de quem a ocuparia: a pessoa precisava ter acompanhado a trajetória de Jesus e poder testemunhar a ressurreição. Dois candidatos foram apresentados. Depois de oração e sorteio, Matias passou a ser contado com os onze. Atos não conta a morte dele. Uma compilação posterior, baseada em Foxe e em outros relatos, diz que Matias foi apedrejado e depois decapitado em Jerusalém. É assim que essa compilação conta o fim, não o livro de Atos.

Paulo é chamado de apóstolo, mas não fazia parte dos doze originais e não foi o escolhido naquela passagem para substituir Judas. Por isso ficou fora da lista.

O que dá para saber

Para alguns há uma morte na Bíblia. Para outros, relatos escritos depois. Às vezes as histórias não concordam, e o nome sozinho pode enganar, como no caso dos vários Tiagos. O mesmo cuidado com o que o texto diz e com o que a tradição acrescentou aparece nos anjos segundo a Bíblia, na regra de não olhar para trás e em Lilith, uma história de primeira esposa que a Bíblia não conta.

As ilustrações deste texto são interpretações artísticas, não retratos históricos. O vídeo não tem a intenção de ofender nenhuma religião. Quem conhece outra versão pode indicá-la, de preferência com a fonte.

Perguntas frequentes

A Bíblia conta a morte de todos os 12 apóstolos?

Não. O vídeo separa o que está nos Evangelhos e em Atos do que vem de livros apócrifos, de autores antigos e de tradições posteriores. Em vários casos há mais de uma versão, e elas não concordam.

Pedro foi crucificado de cabeça para baixo?

O Evangelho de João indica a morte de Pedro, mas não descreve a cruz invertida. Essa posição aparece numa tradição antiga, contada por Eusébio a partir de Orígenes, e também nos Atos apócrifos de Pedro, em que o próprio pedido é explicado de um jeito simbólico, diferente da frase mais conhecida sobre ele não se achar digno.

A cruz de André era em forma de X?

A história apócrifa seguida no vídeo, sobre o conflito com Egeates em Patras, não diz que a cruz era um X. Esse formato ficou conhecido depois, na tradição. A Legenda Áurea, coleção medieval, fala de dois dias de pregação na cruz.

Paulo faz parte dos doze?

Não. Ele é chamado de apóstolo, mas não estava entre os doze originais e não foi o escolhido em Atos para ocupar a vaga de Judas. Por isso o vídeo o deixa fora dessa lista.

Quem substituiu Judas Iscariotes?

Matias. Atos conta a escolha: era preciso ter acompanhado a trajetória de Jesus e poder testemunhar a ressurreição. Dois candidatos foram apresentados, e, depois de oração e sorteio, Matias passou a ser contado com os onze. O livro não narra a morte dele.

Fontes

  1. Evangelhos e Atos dos ApóstolosRelatos bíblicos usados no vídeo, entre eles a morte de Judas em Mateus, o anúncio sobre Pedro em João, a morte de Tiago à espada e a escolha de Matias.
  2. Atos e Martírio de MateusLivro apócrifo citado para uma versão em que o fogo não consome Mateus.
  3. Clemente de AlexandriaMencionado porque outro autor, segundo ele, defendia que Mateus não morreu como mártir.
  4. Atos apócrifos de ToméRelato da viagem à Índia e da morte com lanças, por ordem de Misdaeus. O vídeo também lembra tradições que colocam Tomé na Pártia.
  5. Eusébio de Cesareia, a partir de OrígenesTradição antiga que situa Pedro em Roma, crucificado de cabeça para baixo a pedido dele.
  6. Atos apócrifos de PedroInclui o encontro em que Pedro pergunta “Quo vadis?” e uma explicação simbólica do pedido da cruz invertida.
  7. Legenda ÁureaColeção medieval de vidas de santos, usada para André, Bartolomeu e para versões sobre Simão e Judas Tadeu.
  8. TertulianoConta que João teria sido posto em óleo fervente, saído ileso e enviado ao exílio numa ilha.
  9. Atos apócrifos de João e Atos apócrifos de FilipeFinais de João em Éfeso e de Filipe em Hierápolis, com Bartolomeu e Mariamne no relato de Filipe.
  10. Martírio de BartolomeuVersão em que um rei manda golpeá-lo com varas e depois decapitá-lo, sem o esfolamento.
  11. Flávio JosefoConta a condenação ao apedrejamento de Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo, por iniciativa do sumo sacerdote Anano. Não o identifica como filho de Alfeu.
  12. Compilação posterior baseada em Foxe e outros relatosConta que Matias foi apedrejado e depois decapitado em Jerusalém. Atos não narra essa morte.

Leia também